Anresf abre investigação sobre Lamacchia, mas o regulamento entrega a saída — e o DIP de R$ 150 mi fica fora da trava
A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol instaurou procedimento de verificação sobre possível conflito de propriedade na venda da SAF vascaína a Marcos Lamacchia. É o primeiro expediente do tipo aberto pela Anresf.

A Anresf (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol) notificou o Vasco da Gama nesta quarta-feira sobre a instauração de procedimento de verificação de possível conflito de propriedade na venda da SAF do clube. É a primeira vez que a agência reguladora abre um expediente de averiguação dessa natureza.
O processo investiga se uma mesma pessoa exerce, ou pode vir a exercer, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube participante da mesma competição — hipótese vedada pelo artigo 86 do Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira. Marcos Lamacchia, que tem acordo encaminhado para adquirir a SAF vascaína, é enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras com mandato até dezembro de 2027.
A direção cruzmaltina recebeu a notificação com naturalidade. Representantes de Lamacchia já vinham mantendo contatos com membros da Anresf e haviam realizado apresentação prévia da estrutura empresarial que pretendem constituir para a operação. Nas conversas, deixaram clara a disposição para implementar qualquer ajuste solicitado pela agência.
'O Marcos tem total tranquilidade para implementar qualquer sugestão a ser proposta pela Anresf, qualquer uma. Então, dentro disso, a operação vai acontecer, é importante que se diga. Ela vai acontecer. (...) Não causa nenhum tipo de preocupação', afirmou em julho o advogado André Sica, que integra a negociação, ao ge.
O otimismo manifestado por Sica encontra respaldo na própria regulamentação. O artigo 86 prevê uma saída: a constituição de um blind trust previamente aprovado e supervisionado pela Anresf. Trata-se de arranjo no qual um fundo controla os ativos sem que o proprietário tenha conhecimento ou influência sobre eles. No caso da SAF vascaína, essa formatação teria prazo determinado, vigendo até que Leila Pereira deixe a presidência do Palmeiras. Para o Expresso98, é exatamente esse dispositivo que sustenta a confiança manifestada pelo investidor — a solução não depende de interpretação: está no regulamento, e Lamacchia já sinalizou que adotará qualquer moldura sugerida pela agência.
Internamente, dirigentes vascaínos manifestam confiança plena na conclusão da negociação. Com a saída institucional prevista no próprio regulamento, consideram improvável que a Anresf vete a venda para Lamacchia. O investidor, segundo pessoas próximas, deseja estar o quanto antes em conformidade com as exigências da agência.
O Vasco foi notificado para apresentar manifestação e cumprir diligências determinadas. O Palmeiras, a Almirante Participações e Empreendimentos S.A., a Crefipar e o Banco Crefisa também receberam notificação. Enquanto o caso tramita, medidas cautelares foram aplicadas ao clube cruzmaltino, que fica temporariamente impedido de estabelecer relações comerciais com o Palmeiras.
As restrições vedam operações financeiras entre os clubes — transferências definitivas ou empréstimos de jogadores — e compartilhamento de estruturas, como centros de treinamento. O Vasco tampouco poderá tomar novos empréstimos da Crefisa, como ocorreu com o crédito de R$ 80 milhões obtido em outubro de 2025.
O novo empréstimo DIP de R$ 150 milhões solicitado, contudo, não entra na restrição. A operação está vinculada à Almirante Participações, e não à Crefisa, o que a exclui do escopo das medidas cautelares. A leitura do Expresso98 é que essa exclusão assume relevo imediato: com o clube projetando recursos em caixa somente até 31 de agosto, a janela de liberação desse crédito permanece aberta, e a trava cautelar não incide sobre a linha de liquidez mais urgente da recuperação judicial.
O procedimento tramita sob sigilo. A previsão é de que a análise dure cerca de um mês. A instauração do processo, no entanto, não constitui julgamento. A abertura do expediente não representa posicionamento sobre o mérito da operação nem avaliação prévia da estrutura projetada. O Expresso98 enxerga que essa ressalva tem peso: o calendário apertado da negociação — com edital de concorrência aberto até 4 de setembro e janela de transferências fechando no mesmo prazo — obriga que a formatação do blind trust seja endereçada rapidamente, mas o início do procedimento não configura, por si, sinal de obstrução.
Com informações do GE Vasco.
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