Bellini: o gesto imortal nasceu em São Januário
Antes de erguer a Jules Rimet ao céu da Suécia em 1958, o capitão eternizou-se no Vasco com 430 jogos, 12 títulos e a liderança que o transformaria no primeiro brasileiro a receber uma Copa do Mundo.

Em 29 de junho de 1958, Hilderaldo Luís Bellini cravou seu nome na história do futebol mundial. Não apenas por ter sido o primeiro jogador brasileiro a receber em mãos a taça da Copa do Mundo como campeão, mas por um gesto que se tornaria imortal: erguer o troféu contra o céu. Nunca antes um campeão havia celebrado daquela maneira. Nunca mais seria diferente.
Mas a trajetória que levou Bellini àquele instante começou anos antes, nas arquibancadas e gramados de São Januário. O zagueiro chegou ao Vasco em 1952, momento em que o clube passava por renovação após o desmanche do eterno Expresso da Vitória. Conhecido pela postura, liderança e vigor defensivo, o jovem defensor consolidou-se rapidamente no clube cruzmaltino até tornar-se capitão e ser considerado um dos melhores defensores do Brasil.
"Na defesa, Bellini chutava até a bola", escreveu Nelson Rodrigues em uma crônica durante a Copa de 1958, sintetizando a determinação que caracterizava o estilo do zagueiro vascaíno.
Ao longo de uma década vestindo a camisa cruzmaltina, Bellini disputou 430 jogos e conquistou 12 títulos. Entre eles, três Campeonatos Cariocas: 1952, 1956 e 1958. Este último entraria para a história com a alcunha de "super-supercampeão", pois Vasco, Flamengo e Botafogo precisaram realizar dois minicampeonatos entre si — conhecidos como "supercampeonatos" — para definir o campeão de um torneio que terminara empatado.
O prestígio construído em São Januário abriu as portas da seleção brasileira. Bellini acompanharia Orlando e Vavá como representantes do Vasco na Copa do Mundo de 1958 e teria a honra de carregar a faixa de capitão da seleção brasileira em um elenco repleto de craques como Garrincha, Didi, Nilton Santos e Pelé.
Após vencer a Suécia por 5 a 2, coube ao rei Gustavo entregar a taça Jules Rimet ao capitão da seleção campeã. Bellini inventou então o gesto que o imortalizaria também com uma estátua em frente ao estádio do Maracanã. Anos depois, o ex-zagueiro confidenciaria que ergueu o troféu por não saber exatamente o que fazer com ele e para atender pedidos dos fotógrafos que registravam o momento histórico. Ele ainda se tornaria bicampeão da Copa do Mundo em 1962, após transferir-se para o São Paulo naquele mesmo ano.
Bellini faleceu em 2014, aos 83 anos. Os últimos anos de vida do zagueiro foram impactados pelo diagnóstico de Mal de Alzheimer. Após sua morte, a família doou o cérebro para estudos das consequências de impactos na cabeça em jogos de futebol. Descobriu-se posteriormente que Bellini sofria, na verdade, de encefalopatia traumática crônica (ETC), doença neurodegenerativa que ocorre pela repetição de golpes na cabeça e acomete principalmente atletas de esportes de contato.
O Vasco publicou um obituário em seu site oficial à época, assinado por Roberto Dinamite, que prestou homenagem ao ídolo: "Por tudo que representou para os vascaínos de ontem e pelo que deixou de legado para o futebol brasileiro, o Club de Regatas Vasco da Gama, num preito de reconhecimento e gratidão, dirige-lhe duas palavras que bem simbolizam sua trajetória de vida, seja ela futebolística ou pessoal. Obrigado, Supersupercampeão!"
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