Declarações e métodos: os bastidores da queda de Renato Gaúcho
Fala sobre colombianos, exposição do grupo e treinos simplistas minaram a relação do técnico com elenco e direção. Clima deteriorou em semanas, e clube já busca substituto para comando cruzmaltino.

'O que eu poderia fazer eu fiz. Se você for ver com quantos atacantes nós terminamos o jogo... Entrar em campo eu também não posso, né?' A frase, dita por Renato Gaúcho após a derrota para o Corinthians por 1 a 0 em 26 de abril, sintetiza um padrão que desgastou o relacionamento do treinador com o elenco vascaíno: a recorrente isenção de responsabilidade em coletivas de imprensa.
Renato Gaúcho não resistiu à pressão no cargo e deixou o comando técnico do Vasco antes mesmo do retorno do calendário de jogos. A ruptura teve início em problemas de relacionamento com o grupo de atletas e alcançou a direção do clube, segundo apuração do ge.
O episódio de maior impacto ocorreu quando o técnico comentou publicamente o momento difícil de Marino Hinestroza. Renato afirmou que jogadores nascidos na Colômbia e no Equador têm muita dificuldade de adaptação ao futebol brasileiro. A declaração incomodou os quatro colombianos do elenco — Marino, Andrés Gómez, Cuesta e Rojas — repercutiu internacionalmente e foi mal recebida pelo restante do grupo, que mantém ótima relação com o quarteto sul-americano.
Posteriormente, outros posicionamentos do treinador em entrevistas coletivas aprofundaram o mal-estar. Tornou-se comum vê-lo pedindo reforços, alegando não ter opções suficientes no banco de reservas e ressaltando o início ruim do Vasco no Campeonato Brasileiro — um ponto nas quatro primeiras rodadas antes de sua chegada —, em falas interpretadas internamente como exposição do elenco.
A forma como Renato lidou com momentos de crise também gerou incômodo em São Januário. Na derrota para o Bragantino por 3 a 0 em casa, no dia 24 de maio, o técnico reagiu às vaias da torcida com gestos na direção da arquibancada e, ao caminhar para o vestiário após a partida, fez sinal de positivo enquanto era xingado. No vestiário, chegou a colocar o cargo à disposição. Com receio de pedido de demissão ao vivo na coletiva, o clube optou por enviar apenas o diretor Admar Lopes e o capitão Thiago Mendes à sala de entrevistas.
A metodologia de trabalho no CT Moacyr Barbosa igualmente provocou estranhamento. Enquanto os treinos de Fernando Diniz — antecessor no cargo — eram detalhistas, com atenção ao posicionamento corporal e aspectos técnicos específicos, as sessões comandadas por Renato Gaúcho eram vistas como excessivamente simples pela direção e pelos atletas: conversas individuais e treinos genéricos com bola, quase sempre coletivos.
Diniz era elogiado pela blindagem ao grupo e por assumir responsabilidade em momentos turbulentos. Com Renato, a percepção — inclusive na diretoria — era de que os jogadores ficavam expostos pelas declarações públicas e pelo comportamento à beira do campo.
A avaliação interna de pessoas próximas ao dia a dia do CT é de que Renato 'perdeu parte do grupo'. Thiago Mendes e Hugo Moura eram alguns dos poucos citados que mantinham relação de maior proximidade com o técnico. A sensação nos bastidores, já há meses, era de que o trabalho não duraria muito tempo. Renato não estava plenamente convencido do projeto vascaíno no início das conversas e foi persuadido pela diretoria a aceitar.
O elenco se reapresenta na próxima segunda-feira no CT Moacyr Barbosa. Serão quatro semanas de preparação até o retorno do futebol de clubes, quando a direção espera ter um novo comandante. O próximo compromisso do Vasco ocorre no dia 22 de julho, contra o Independiente Medellín, fora de casa, na ida dos playoffs da Copa Sul-Americana. No fim de semana seguinte, a delegação cruzmaltina recebe o Mirassol pelo Brasileirão, competição na qual o clube ocupa a 17ª posição, dentro da zona de rebaixamento.
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