Lamacchia garante R$ 500 mi ao futebol, mais R$ 150 mi ao CT e assume R$ 1,3 bi em dívidas — mas a Justiça trava tudo
Proposta total passa de R$ 3 bilhões, mas empréstimo de R$ 150 milhões segue bloqueado pela juíza e Vasco fica impedido de contratar. Entenda cada passo da venda da SAF, quem é Marcos Lamacchia e por que o processo arrasta há dois anos e meio.

A venda da SAF do Vasco para Marcos Lamacchia envolve uma operação que passa de R$ 3 bilhões, mas o processo segue travado pela Justiça e a negociação arrasta há dois anos e meio. Sem o empréstimo de R$ 150 milhões bloqueado pela juíza Simone Gastesi Chevrand, o clube fica impedido de contratar reforços e corre o risco de não arcar com o cronograma da Recuperação Judicial.
Marcos Faria Lamacchia é filho de José Roberto Lamacchia, dono da Crefisa, com Junia Faria, herdeira do Banco Alfa. Empresário com carreira independente no mercado de investimentos, ele negocia através da Almirante Participações. A proposta inclui R$ 500 milhões em aportes para o futebol (com R$ 80 milhões da dívida do empréstimo), R$ 150 milhões carimbados para o CT, o pagamento de dívidas concursais e extraconcursais de aproximadamente R$ 1,3 bilhão e a cobertura do déficit de caixa dos próximos cinco anos, estimado em R$ 300 milhões por ano — R$ 1,5 bilhão no total. Para o Expresso98, a magnitude dos valores propostos sinaliza compromisso real com a reconstrução estrutural do clube: são R$ 500 milhões diretos no futebol, R$ 150 milhões em infraestrutura de base e a assunção de R$ 1,3 bilhão em passivos, além da cobertura de déficits futuros — o tipo de aporte que, se consolidado, muda o patamar financeiro do Vasco e permite competitividade sustentável.
A relação entre a família Lamacchia e Pedrinho vem de uma amizade antiga. José Roberto Lamacchia tentou comprar a SAF no início de 2024, mas não houve acordo com a 777 Partners. A negociação esquentou no fim do ano passado, com o interesse de Marcos. Leila Pereira, presidente do Palmeiras, não participa da operação. Segundo José Roberto Lamacchia, em entrevista ao ge, ela pode ajudar o Vasco futuramente, mas apenas depois que terminar o mandato no Palmeiras.
André Sica, representante jurídico da família Lamacchia, afirmou ao ge que as idas e vindas dentro da política do Vasco atrapalharam muito o processo. "O processo mudava muito ao longo do tempo, isso foi ruim, foi desgastante. O grande mérito do Pedrinho foi manter o Marcos nessa mesa, porque o Marcos e nós quase deixamos essa mesa algumas vezes. Foi uma mesa conturbada durante esses dois anos e meio", disse Sica. A leitura aqui é que, apesar do desgaste confesso, o fato de Lamacchia ter permanecido à mesa por dois anos e meio demonstra interesse genuíno — investidores de ocasião não sustentam negociação atravessada por essa turbulência política e judicial.
A venda ainda não foi concluída. Existe uma proposta concreta da Almirante Participações, que servirá como referência mínima para um processo competitivo. Outros interessados poderão apresentar propostas. Caso alguém ofereça valor superior, Lamacchia terá direito de igualar a maior proposta. Se não houver proposta de terceiro vencedora, a de Lamacchia é declarada vencedora e o juízo declara a arrematação da unidade produtiva. A partir disso, a proposta passa pelo Conselho Deliberativo do Vasco e pela Assembleia Geral.
A SAF está sob controle da gestão do clube social, comandada por Pedrinho. A estrutura acionária está dividida: a 777 possui 31% das ações, o Vasco tem 30% e os outros 39% estão em disputa na arbitragem. As dívidas serão assumidas por Lamacchia e pagas conforme a previsão acordada na recuperação judicial. Em reunião nesta semana, ele se comprometeu a garantir e antecipar os recursos para o pagamento das obrigações previstas para os próximos dois anos. O compromisso explícito com a antecipação de recursos para os próximos dois anos, na avaliação do Expresso98, representa um alívio de curto prazo importante: se confirmado, tira o Vasco da corda bamba imediata da RJ e permite que o clube atue com margem de planejamento enquanto a venda se consolida.
A Justiça exerce papel central no processo, porque o Vasco está em recuperação judicial. Qualquer movimento do clube deve ser fiscalizado e aprovado por administrador judicial, watchdog, gatekeeper, Ministério Público, magistrada e ANRESF (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol). O watchdog é o fiscalizador Athos Neves, que avalia governança e finanças da SAF. O gatekeeper é o ex-procurador-geral de Justiça Eduardo Gussem, nomeado para fiscalização e monitoramento no processo de recuperação judicial.
O Vasco realizou dois empréstimos DIP (Debtor-in-Possession) — crédito para empresas em recuperação judicial que injeta dinheiro no caixa enquanto as dívidas antigas são pagas. A Crefisa emprestou R$ 80 milhões ao Vasco em 2025. Este empréstimo será perdoado por Lamacchia caso ele seja o novo dono. Em 2026, o Vasco pegou mais R$ 40 milhões com a Almirante Participações, que será contado como fluxo de caixa se a venda for realizada.
Agora, o Vasco pediu R$ 150 milhões à Almirante, como antecipação de aporte. A juíza negou duas vezes, alegando necessidade de nova auditoria financeira e apontando que os R$ 150 milhões viriam do mesmo grupo que apresentou proposta para assumir o futebol. Somados aos empréstimos anteriores, os valores chegariam a R$ 270 milhões, o que pode dificultar a concorrência no processo competitivo. O Vasco argumenta que auditoria e financiamento têm finalidades distintas e que precisa do dinheiro de maneira urgente. Para o Expresso98, o argumento do clube procede: o empréstimo atende emergência de caixa documentada, e travar o aporte por temer que ele afaste concorrentes presume que existam concorrentes reais — algo que, até aqui, não se materializou em nenhuma proposta formal alternativa, apesar da janela aberta há meses.
Com informações do ge.globo, por Bruno Murito.
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