Milton Cunha: 'O Vasco era uma célula de liberdade' — como a história do clube destroçou a homofobia que o afastava do futebol
O carnavalesco cresceu ouvindo 'viado' como xingamento nas arquibancadas. Aos 18, descobriu que o time do avô tinha caráter revolucionário — e abraçou a Cruz de Malta como pertencimento.

'Nas pesquisas universitárias, vou descobrindo esse caráter revolucionário e democrático do Vasco. Os jogadores negros, o apoio contra a homofobia... Meu avô me chamava de Júnior. Eu pensei: Júnior, então o time do teu avô era babado fortíssimo, uma célula de liberdade.'
Quem fala é Milton Cunha, carnavalesco paraense que cresceu na Ilha de Marajó ouvindo o futebol como território proibido. Em entrevista ao UOL, ele revisitou a trajetória tortuosa com o esporte — e como a história do Vasco abriu a porta que a homofobia mantinha trancada.
Milton passou a infância frequentando o Tuna Luso, clube fundado por imigrantes portugueses no Pará e com a mesma cruz do Vasco no escudo. O avô era torcedor cruzmaltino com um pé na Tuna. Mas o neto não conseguia se encaixar naquele mundo.
'Eu era a bichinha. Queria a dança, o artesanato, eu tinha os talentos manuais, e isso era um drama', contou. Nas aulas de educação física, fugia do futebol sempre que podia — escolhia corrida, vôlei, qualquer coisa. 'O futebol era um terreno muito demarcado dessa masculinidade viril, que não me interessava.'
Nas arquibancadas da Tuna Luso e nas reuniões em volta do rádio, ouvia os xingamentos que transformavam sua identidade em ofensa. 'Gritavam aos jogadores: Pega a bola, viado! Bicha! Eles estavam falando do meu grupo e usavam isso com um linguajar pesado. Se eles chamam os jogadores de viado, do que me chamariam, então?'
Milton define o futebol daquela época como 'território apartado'. De um lado, os meninos inseridos no escopo da masculinidade aceita. Do outro, todos os que não se encaixavam — por qualquer motivo. 'Eu estava com os ditos esquisitos, o que na infância é cruel. Era a junção dos afeminados, intelectuais, nerds... E havia meninos, mesmo gays, que gostavam de futebol. Não era apenas uma questão de sexualidade. Para mim, era um dilema quando tentavam me padronizar, era uma interrogação em minha cabeça. E aí ou você sucumbe ou mete o pé na porta.'
Foi aos 8 anos, em 1970, que ele entendeu que o futebol era paixão nacional — viu as pessoas se reunirem em volta da TV para a Copa do Mundo. Naquela mesma época, começou a prestar atenção por outro ângulo. 'Os comentaristas diziam: Olha o balé do Garrincha e pensei: que interessante. O jogador de futebol talentoso pode, com a ginga, malandrear com a bola. Era incrível fazer as conexões artísticas.'
A figura de Pelé ajudou nessa reconstrução. 'Eu peguei aquela geração Pelé, arrebatadora, fabulosa, um rolo compressor que passou em cima de mim com as notícias sobre futebol. Passei a enxergar esse talento brasileiro pelo qual eu não me interessava. Eu, cultura, antropologia, sociologia, luta de classes. O que não me deixava me entregar a essa paixão era a homofobia dos torcedores.'
A virada aconteceu na faculdade de psicologia. Foi em meio às pesquisas universitárias que Milton conheceu a fundo a história do Vasco — o clube que o avô mencionava. Descobriu o caráter democrático, a luta pelos jogadores negros, o posicionamento contra a homofobia. E fez a conexão que mudaria tudo.
'Olha como você pode se surpreender. Aqueles homens viris, que gritam, apoiaram a possibilidade de cada um ser quem é. Aí eu disse: Então tá, sou Vasco', relembrou. Aos 18 anos, abraçou a Cruz de Malta. 'Já não tinha mais vergonha, o medo, via que eles defendiam coisas boas. Então, acho que essa é a última porta de entrada. Foi descobrir a história e descobrir como essa história poderia estar a meu favor.'
Logo após se formar, Milton embarcou em um pau de arara rumo ao Rio de Janeiro. Na cidade, estreitou os laços com São Januário. Quem o levou à Barreira do Vasco, comunidade colada ao estádio, foi Francisco Horta, presidente da Unidos da Tijuca e torcedor vascaíno. 'Chegando lá, não tem a Muralha da China que estava no meu imaginário', riu. 'Pensava em uma barreira maravilhosa. Era apenas a cidade se misturando, o povo.'
Nos últimos anos, o Vasco lançou uma camisa com as cores da bandeira LGBTQIA+ na faixa transversal. Milton foi um dos presenteados pelo clube. Para ele, é o futebol ao qual quer pertencer.
'Este é o futebol que quero pertencer, que não usa o que a gente faz para ser sinônimo do viado, pega a bola. Moço, nós, viados, somos talentosíssimos. Os viados que querem jogar futebol são um espetáculo. Eles sabem jogar futebol, porque a gente, quando tem um talento, se dedica àquilo de tal forma que parece a tábua de salvação, parece a única forma de inserção no mundo.'
A entrevista foi publicada pelo UOL às vésperas de um momento importante para o Vasco — o time disputava a ida da semifinal da Sul-Americana contra o Boca Juniors. Um clube que, décadas antes, abriu a porta para um jovem do Pará que só precisava de um pouco de história para descobrir onde cabia.
Com informações do NetVasco, que cita Youtube UOL Esporte.
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