'Um dia a senhora vai me ver jogando na TV': a promessa de Marta

Aos 9 anos, em frente a uma TV preto e branco, Marta prometeu à mãe que chegaria ao futebol. Décadas depois, a maior artilheira da história da Seleção relembra os dias de fome no Vasco e recusa aposentadoria.

Marta futebol feminino Vasco

'Um dia a senhora vai me ver jogando na TV.' A promessa foi feita aos 9 anos, sentada no sofá de casa em frente a uma televisão em preto e branco. Três décadas e incontáveis conquistas depois, Marta não é só a rainha do futebol — é a maior artilheira da Seleção Brasileira, masculina ou feminina, com 132 gols, seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo pela Fifa.

Mas antes de tudo isso, houve fome. Houve escolha entre almoçar ou jantar. Houve três dias de ônibus sem tomar banho — porque era pago — rumo ao Rio de Janeiro, com o dinheiro contado e o sonho desmedido. A menina de Dois Riachos, interior de Alagoas, vendia geladinho, lavava pratos e empurrava carroça de feira para juntar o suficiente e tentar a sorte num clube grande.

Aos 14 anos, depois de dormir ao lado de um orelhão à espera da ligação que nunca vinha — poucas pessoas na cidade de 11 mil habitantes tinham telefone próprio —, Marta embarcou sozinha para a capital fluminense. Chegou, fez o teste e foi aprovada de imediato no Vasco da Gama. O resto virou história — mas uma história que ela faz questão de contextualizar.

'Muita gente lá atrás ralou, deu o sangue e jogou em campo de terra batida para que hoje as meninas tivessem uma estrutura, um reconhecimento e um apoio maiores', diz a camisa 10, relembrando os tempos em que recebia R$ 400 por mês no Vasco. 'Uma maravilha!', brinca, sem perder o senso de humor nem a consciência do que aquelas veteranas — que jogavam quando a lei ainda proibia mulheres de praticarem futebol — fizeram por quem veio depois.

Três medalhas de prata olímpicas (Atenas 2004, Pequim 2008 e Paris 2024), vice-campeonato mundial em 2007, tetra da Copa América (2003, 2010, 2018 e 2025), bicampeã pan-americana (2003 e 2007), cinco prêmios de melhor do mundo consecutivos entre 2006 e 2010. Para quem cobra o ouro que nunca veio, Marta tem outra leitura: 'Esses feitos, que pra mim são inéditos, serviram pra impulsionar a modalidade. Então a falta dessa medalha não me frustra.'

O discurso é de quem entende que a trajetória individual nunca foi só dela. 'Não sou pioneira, sou uma continuação de um projeto de milhares de atletas que começaram antes de mim. Eu só dei seguimento, achei aquela sementinha que plantaram lá atrás e reguei', afirma, com a humildade de quem reconhece que ainda há solo a preparar. 'Tenho noção de que a terra ainda não está tão fértil assim, então vamos cuidar dela, porque uma hora vamos conseguir colher os frutos.'

Sobre a Copa do Mundo Feminina do ano que vem, a primeira sediada no Brasil, Marta é direta: vencer em casa é uma possibilidade, não um martírio. 'O que mais ouço é que tenho que me despedir com chave de ouro. Sei das expectativas das pessoas, mas estou vivendo um dia de cada vez. Minha vida inteira tive essa cobrança, então já não sinto mais esse peso. Eu não perco uma noite de sono pensando na Copa do Mundo Feminina do ano que vem.'

Ainda assim, a vontade é clara: 'Se pudesse, trocaria todos os meus títulos individuais por um coletivo, porque sei que isso é importante para as meninas da Seleção, para o nosso país, para o povo brasileiro.'

A mesma Marta que pondera sobre a evolução do futebol feminino — 'sempre houve uma pressão para ganhar antes e só depois ter acesso a melhorias. Deveria ser o oposto' — também reconhece avanços desde os tempos de campo de terra batida. 'Agora elas podem focar apenas em dar seu melhor', diz, referindo-se à nova geração que não precisará escolher entre comer e tomar banho.

Quanto à aposentadoria, a resposta é firme para quem questiona quando ela vai parar: 'Você conhece minha trajetória? Você me acompanha todos os dias? Você sabe o quanto me cuido? Se ainda estou jogando nessa idade, é porque de alguma coisa eu tive que abrir mão. É porque ainda enxergo algo dentro de mim. Na minha mente, no meu corpo. No dia em que eu sentir que nada disso faz mais sentido, eu vou parar.'

A menina que enfrentava os meninos da rua — 'botava todos os pernas de pau do meu lado e falava: bora!' — ainda carrega a mesma chama competitiva. 'Quando você se conhece e tem uma consciência bem clara daquilo que almeja, só leva consigo o que é importante.'

E o que é importante, para Marta, nunca mudou: jogar futebol. O resto — incluindo a rara exposição de intimidade, como as imagens do casamento com a jogadora Carrie Lawrence no início do ano — fica de fora. Ela prefere mesmo é falar de bola.

'Eu me conheço melhor do que ninguém. Sei dos meus limites, mas sei também da minha capacidade. E é por isso que estou jogando até hoje.'

Com informações do NetVasco, que cita Marie Claire.

Por Redação Expresso98 · Publicado em 04 de agosto de 2026

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