Vasco adota regras rígidas para cartão corporativo e se protege
Enquanto ex-presidentes de Corinthians e São Paulo enfrentam escândalos por uso indevido de cartões corporativos, o Vasco se destaca com controles rigorosos: apenas gerente financeiro e CFO têm cartões habilitados, e presidente não possui acesso.

Num momento em que cartões de crédito corporativos viraram símbolo de má gestão no futebol brasileiro, o Vasco da Gama se destaca por adotar um modelo de controle rigoroso e transparente. Enquanto ex-presidentes de Corinthians e São Paulo enfrentam escândalos por gastos pessoais bancados com recursos dos clubes — de restaurantes de grife a salões de cabeleireiro —, o Cruz-Maltino mantém uma política restritiva que limita acesso e exige prestação de contas detalhada.
Segundo levantamento do ge com os 20 clubes da Série A, apenas nove responderam sobre como utilizam e fiscalizam os cartões corporativos: Atlético-MG, Corinthians, Coritiba, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo, Vasco e Vitória. A reportagem também consultou especialistas em governança e dirigentes de clubes, que convergem para o mesmo diagnóstico: o problema não está na ferramenta, mas na falta de regramento e fiscalização.
No Vasco, a estrutura é enxuta e controlada. Apenas o gerente financeiro e o CFO possuem cartões habilitados. O CEO e o presidente do Conselho, por opção institucional, não têm acesso aos cartões corporativos — uma diferença marcante em relação a outros clubes. O Internacional, por exemplo, informou que o presidente Alessandro Barcellos utiliza cartão para alimentação, hospedagem, transporte e emergências institucionais, todas justificadas.
As despesas autorizadas no Vasco são específicas: registro de atletas nas federações e investimentos em ativo imobilizado que precisem ser parcelados. Nada de gastos genéricos ou pessoais. A fiscalização fica a cargo do CEO e do CFO no comitê de caixa, com aprovação via sistema que confirma a existência de orçamento disponível antes de cada despesa. Há limite por fatura, e o código de conduta do clube prevê punições claras em caso de uso indevido, incluindo sanções previstas em contrato com os funcionários.
"O cartão em si não é o problema. O problema é quem se utiliza mal dessa ferramenta", afirmou Washington Fonseca, especialista em Direito Corporativo e compliance, ao ge. Fonseca, professor de pós-graduação no IBMEC, destaca a importância de regras claras quanto ao uso, limites financeiros por cargo e fiscalização pelo departamento financeiro. "Havendo algum tipo de desvio ou de finalidade não atingida, isso deve ser reportado para o setor de compliance para que ele tome medidas, pode ser uma advertência, o desligamento do profissional ou até providências de ressarcimento na esfera cível e penalização na esfera penal", complementou.
O modelo vascaíno contrasta com a realidade de outros clubes. No Corinthians e no São Paulo, os atuais presidentes Osmar Stabile e Harry Massis abriram mão do cartão de crédito após escândalos envolvendo os antecessores. No Timão, em 2021, quando houve compras pessoais no cartão de Andrés Sanchez, o presidente do Conselho Fiscal era João de Oliveira, advogado do próprio dirigente — um exemplo do caráter político que contamina a fiscalização em muitos clubes.
Palmeiras e Santos adotam estruturas mais detalhadas. O Verdão, por exemplo, limita o uso a um colaborador do departamento de futebol profissional e um do financeiro, sem que dirigentes tenham acesso. Todas as despesas são fiscalizadas pela Controladoria, com documentação comprobatória registrada em sistema integrado e aprovação de gestores. As faturas só são pagas após checagem completa, inclusive por auditoria interna. O Santos também envolve o departamento de Compliance e presta contas trimestral ao Conselho Fiscal, com limite por cartão e código de conduta que prevê desde advertências até medidas mais severas.
Especialistas ouvidos pelo ge alertam que não basta existência de regras — é preciso fiscalização rígida. Mesmo Corinthians e São Paulo, que possuem departamento de compliance e Conselho Fiscal, não conseguiram evitar desvios. O Tricolor paulista só criou uma política formal de uso do cartão corporativo em dezembro de 2025.
A CBF, em seu Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira formulado no fim do ano passado, recomenda a estruturação de um Programa de Integridade e Conformidade nos clubes, incluindo código de ética, controles internos e canal de denúncias. Porém, trata-se de sugestão, não obrigação.
No Coritiba, a solução foi radical. Após identificar falta de controle — chegaram a encontrar compras de roupas entre 25 cartões ativos —, o Coxa contratou a plataforma Paytrack. Agora, gastos menores são feitos com recursos dos próprios funcionários, que solicitam reembolso online. Despesas maiores são depositadas em conta digital do colaborador, que usa via pix e depois apresenta comprovantes. O clube praticamente aboliu os cartões corporativos, mantendo apenas um no departamento financeiro para serviços que exigem a modalidade.
Enquanto o futebol brasileiro ainda convive com escândalos — anos atrás, o cartão do Cruzeiro pagou até despesas em casa noturna de entretenimento adulto —, o Vasco mostra que governança rigorosa e controles internos funcionam. Numa temporada em que o clube ocupa a 17ª posição do Brasileirão com 21 pontos em 20 jogos, a gestão financeira transparente e responsável é um diferencial que transcende o campo.
Com informações do NetVasco, que cita ge.
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